Febre amarela o surto midiático e o pânico interior

Afinal, que medo é esse que leva as pessoas de áreas consideradas seguras às filas de madrugada?

Salim Contabilidade

Este escândalo e desespero pela vacina contra febre amarela, lembra muito o meu artigo de 2016, quando, diante de alguns casos de H1N1 no noroeste paulista, parte do interior do estado entrou em pânico. À época, pânico causado na população pelo reforço midiático, imprudente e sensacionalista, pela busca de audiência, influenciou até a economia, com o preço do álcool em gel disparando, e outros medicamentos também tendo seu valor reajustado. Filas se formava de madrugada e senhas se esgotavam em minutos…

Dois anos depois, vemos algo parecido acontecendo, porém, na região não atingida pela epidemia de medo anterior. Dessa vez, o povo da Grande São Paulo se aflige por conta de um mosquito… Matam macacos inocentes e colocam em cheque a capacidade que em teoria nos torna animais únicos: A racionalidade.

Como é possível uma criatura que se diz racional, sair da selva de pedra, local onde não circula a Febre Amarela, e se dirigir à Mairiporã, um município com cerca de 60% de área verde, onde há a circulação confirmada do vírus da Febre Amarela, para querer tomar uma vacina que levará dias para começar a surtir efeito? Onde está a racionalidade em ir se expor ao vírus bruto a fim de tomar uma vacina que é o vírus atenuado, a fim de se proteger?

Mais uma vez, a imprudência midiática em bater indiscriminadamente na mesma tecla, apenas para segurar a audiência é responsável pelo pânico da população. A desinformação oficial, promovida por grandes jornais e grandes emissoras, mais uma vez leva o pânico à população, que por sua vez, já abalada pela falta de confiança em um governo frágil e conhecido por seus atos dúbios, suas mentiras e escândalo após escândalo de corrupção, passa a agir irracionalmente numa corrida desumana pelo “privilégio da vacina”.

O Governo diz que a vacina fracionada protege por alguns anos. Médicos, cientistas e especialistas reforçam isso, porém, como o Governo deu a informação primeiro, o povo simplesmente não acredita. Eu compreendo essa desconfiança, também questionei sobre isso no início, mas, agora, me convenci, não pelo reforço da mídia em repetir o script estatal, mas, porque eu fui pesquisar. Eu usei a internet, a mesma ferramenta que a maioria das pessoas utiliza para matar tempo, para ir atrás de estudos que me comprovassem a eficácia da vacina fracionada.

O mais trágico disso tudo, é que, um dos vilões dessa história não é um inimigo que tenha surgido em um plot twist bombástico de fim de segundo ato, mas sim, de um conhecido há décadas, o Aedes Aegypti, o mosquito da dengue… Hoje, se você perguntar para uma criança de 10 anos, como combater este mosquito, e o porquê disso, ela saberá te responder… Qualquer adulto sabe a resposta também… Então, a pergunta que sobra é: “Por que ainda temos um inimigo que sabemos o quão fácil é vencê-lo?”

O pânico que domina a população, embora tenha sido disparado pelo gatilho midiático, na verdade, trata-se de pânico do remorso, aquele que nos aflige e nos corrói quando percebemos que somos nós mesmos os responsáveis pela situação que nos aflige, e então cai a ficha que não será possível achar um bode expiatório para nos livrar dessa responsabilidade. É o pânico de saber que poderíamos estar livres dessa ameaça “quase” invisível fazendo muito pouco esforço. É o pânico por saber que o cerco fechou e nossos truques acabaram.

Formado em jornalismo como aluno destaque da turma,técnico em Informática, Administração, Secretariado, Informática para Internet e Especialista em Java, Com formação plural sou programador, apaixonado por economia, filosofia e sociologia. Quase um viciado em informação, gosto de compartilhar conhecimento livremente com aqueles que têm interesse em absorver algum conteúdo, no mínimo, curioso.