Brasil projeta 10 GW em armazenamento de energia até 2035, com o desafio de um marco legal e regulamentação avançada.
As projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no Plano Decenal de Energia (PDE 2035), indicam um futuro promissor para o Brasil, com a incorporação de cerca de 7 gigawatts (GW) em armazenamento de energia e outros 3 GW em mecanismos de resposta da demanda. Juntos, esses recursos são vistos como fundamentais para atender às necessidades de potência do Sistema Interligado Nacional (SIN), mas sua viabilização depende crucialmente de um marco legal estável e de avanços regulatórios.
Esta projeção, apresentada por Thais Teixeira, consultora técnica da EPE, foi um dos destaques do Storage Leaders. O evento, promovido pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) na última semana, reuniu especialistas, autoridades e agentes do setor elétrico, incluindo lideranças empresariais, consultores e representantes de entidades de classe e de órgãos de governo.
Durante o evento, um dos principais pontos de atenção levantados foi a urgência na contratação de flexibilidade. Projeções indicam que a carga líquida mínima do SIN em 2029 pode ser inferior à observada em 2024, ao mesmo tempo em que a rampa de carga tende a crescer de forma significativa. Isso exigirá novos recursos para garantir o equilíbrio entre oferta e demanda ao longo do dia, um dos principais desafios operacionais da transição energética. Estudos de Jovanio Santos, diretor de estratégia da Deloitte, apontam para um crescimento de duas a dez vezes nas necessidades de flexibilidade de curto prazo até 2035, refletindo uma mudança estrutural na operação dos sistemas elétricos modernos.
Nesse contexto, tecnologias como baterias, resposta da demanda e usinas hidrelétricas reversíveis ganham protagonismo, enquanto fontes despacháveis assumem um papel cada vez mais voltado à garantia de capacidade. O armazenamento, segundo análises de Marília Rabassa, head de consultoria da CELA (Clean Energy Latin America), surge como uma alternativa competitiva às térmicas fósseis, podendo reduzir em até 48% os custos totais de capacidade e em até 66% as emissões de carbono, além de contribuir para maior eficiência operacional.
A volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que já apresenta variações expressivas, pode ser mitigada com o uso de armazenamento, reduzindo custos térmicos e perdas de energia renovável, conforme análises de Ricardo Simabuku, diretor de Gestão de Mercado da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Para Talita Porto, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), “o armazenamento deve ser tratado como um ativo de flexibilidade, capaz de reorganizar o uso da energia no tempo e no espaço, aliviar congestionamentos, estabilizar a rede e ampliar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN)”.
Casos práticos apresentados durante o debate exemplificaram esses benefícios. Renato Ribeiro, da transmissora ISA Energia, destacou o sistema de baterias implantado na subestação de Registro (SP), que foi essencial para evitar cortes manuais de carga e proporcionar estabilidade de tensão em regiões críticas, como o Litoral Sul de São Paulo durante a temporada de verão. A Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica de Menor Porte (ABRADEMP) também apresentou um projeto piloto no Paraná, onde um sistema BESS de 10 MW / 20 MWh demonstrou ganhos relevantes, como melhoria nos indicadores de continuidade, redução de sobrecargas e colapsos de tensão, e maior resiliência a eventos climáticos extremos.
No cenário internacional, a expansão das baterias avança rapidamente, com a capacidade global saltando de cerca de 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023, conforme a BloombergNEF (BNEF). Esse crescimento, impulsionado pela queda significativa nos custos das baterias – de US$ 170–180 por kWh para aproximadamente US$ 108 nos últimos anos – torna a tecnologia cada vez mais competitiva e viável economicamente. Mais de dois terços dos novos sistemas de baterias já estão sendo conectados diretamente às redes de transmissão e distribuição no mundo, ampliando seu papel no planejamento da infraestrutura e na prestação de serviços ancilares.
Apesar do avanço tecnológico e do potencial de mercado, especialistas alertam para desafios regulatórios no Brasil. Bárbara Rubim, presidente eleita do Conselho de Administração da ABSOLAR, pontua que “o País precisa superar desafios importantes, especialmente a ausência de um marco regulatório consolidado”. Rodrigo Sauaia, CEO da ABSOLAR, acrescenta que “a ausência de regras específicas, a dificuldade de remuneração adequada pelos múltiplos serviços prestados e limitações na estrutura de mercado ainda são barreiras importantes ao desenvolvimento do setor”. Há expectativa para o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP – Armazenamento) de 2026 e a defesa de ajustes estruturais. Sérgio Jacobsen, vice-presidente eleito de Armazenamento da ABSOLAR, conclui que medidas como a inclusão do armazenamento no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI) e a possibilidade de emissão de debêntures incentivadas são fundamentais para destravar investimentos e consolidar o Brasil como protagonista na nova onda tecnológica global. Para ampliar o debate e aproximar o tema dos profissionais do setor, a ABSOLAR realizará, em 21 de maio, em São Paulo, o evento Armazenamento para Integradores.



