O debate sobre Inteligência Artificial (IA) e o futuro do trabalho ganha nova perspectiva. Especialista da GFT Technologies destaca que a tecnologia não substitui, mas humaniza as funções.
A discussão acerca do futuro do trabalho tem sido frequentemente limitada à indagação se a Inteligência Artificial (IA) irá substituir empregos. No entanto, a realidade, conforme aponta Alessandro Buonopane, CEO Latam e Brasil da GFT Technologies, empresa global de transformação digital, indica uma direção diferente. A I está, na verdade, redistribuindo o valor do trabalho, alterando o que as empresas valorizam, a dinâmica das equipes e as habilidades essenciais para o mercado.
Dados recentes revelam que quase 60% dos trabalhadores já utilizam IA em suas rotinas diárias. Contudo, um descompasso significativo ainda existe: apenas 6% das organizações se consideram avançadas no redesenho da interação entre humanos e máquinas. Essa lacuna limita o potencial de ganhos, apesar de quase nove em cada dez profissionais que empregam IA economizarem ao menos uma hora por dia.
O modelo de produtividade individual está se tornando obsoleto. Os maiores benefícios da IA surgem no coletivo, com equipes acima de dez pessoas reportando um impacto duas vezes maior em eficiência e inovação. A tecnologia é crucial para reduzir o custo de coordenação, um tempo antes invisível que consumia mais de 20% da jornada de trabalho. Esse cenário explica um paradoxo: enquanto se acreditava que equipes menores seriam mais eficientes, a complexidade atual favorece times diversos e interdependentes. Empresas que mais capturam valor da IA priorizam habilidades variadas, e equipes multifuncionais têm 30% mais chances de gerar ganhos relevantes.
Apesar da gestão de performance estar presente em 91,6% das organizações, apenas 39% a consideram eficaz. A IA começa a ser um suporte crucial nesse processo, com um terço das organizações já a utilizando e 73% planejando adotá-la. A expectativa é que melhorias impulsionadas pela IA possam elevar a produtividade em mais de 10%.
Outro mito desfeito é o do fim dos escritórios. Atualmente, 55% do tempo de trabalho ainda acontece nesses espaços, que se transformam em hubs de colaboração. Usuários intensivos de IA, cerca de 30% dos trabalhadores, não se isolam; pelo contrário, 85% afirmam ter amizades no trabalho e 86% confiam em suas equipes. A automação libera tempo para atividades genuinamente humanas, como colaboração, aprendizado e inovação.
A transformação também redefine profissões. Vagas ligadas a tarefas repetitivas tiveram queda de aproximadamente 13%, enquanto funções analíticas, técnicas e criativas cresceram cerca de 20%. A IA não substitui o ser humano, mas amplifica sua capacidade, processando dados enquanto o julgamento final permanece humano. Na América Latina, esse movimento é acelerado, com mais de 80% das companhias já adotando IA e 70% relatando mais resultados do que frustrações, embora apenas 14% das lideranças se sintam muito confiantes. Os principais desafios não são técnicos, mas ligados a habilidades e cultura.
Em suma, o futuro do trabalho não reside na substituição de pessoas por máquinas, mas em organizações que dominam a arte de fazer humanos e tecnologia trabalharem juntos de forma inteligente. Empresas que apenas adicionam tecnologia a processos antigos obtêm ganhos limitados, em torno de 5%, enquanto um repensar da forma de trabalhar pode levar a ganhos de até 30%.



