Plácido Berci lança “Louca Normalidade”, explorando a escrita como ferramenta contra o luto e a desorganização mental, inspirada pela jornada de seu pai.
O escritor Plácido Berci, conhecido por suas obras sobre futebol, estreia no universo da ficção com o livro “Louca Normalidade“. A obra, que mergulha no suspense psicológico e no drama familiar, é uma profunda reflexão sobre a tentativa humana de organizar o caos, a memória e o processo do luto, inspirada pela experiência pessoal do autor com seu pai.
A inspiração para o livro surgiu da observação do comportamento de seu pai, Pedrinho, que escrevia incessantemente sobre os mais variados temas. Lembretes, anotações banais, memórias e até fórmulas químicas eram registrados à mão. Este hábito, que já era presente, ganhou contornos de necessidade após um AVC hemorrágico afetar a memória e a linguagem do pai. Uma neurologista sugeriu que a escrita poderia ser uma ferramenta terapêutica para auxiliá-lo na recuperação da memória.
O ato de escrever para Pedrinho não possuía pretensões estéticas ou de reconhecimento, mas sim um propósito de auto-organização. Diante de pensamentos confusos e fragmentados, a escrita se tornou um meio de reencontrar sua própria história. Essa compulsão do pai em anotar, mesmo que de forma caótica, inspirou Plácido Berci a embarcar em sua própria jornada de escrita para encontrar suas respostas, resultando na criação de “Louca Normalidade“.
Ao construir um protagonista que ecoa sua figura paterna, Plácido Berci se inspirou na frase da escritora espanhola Rosa Montero: “a ficção é uma viagem ao outro, e esse é o trajeto mais fascinante que uma pessoa pode fazer”. Durante sete anos, o autor dedicou-se a pensar como seu pai pensaria, desenvolvendo uma profunda empatia que o fez sentir uma fusão entre pai e filho a cada palavra digitada no notebook.
O processo de revisitar lembranças, emoções e traumas pessoais através da escrita revelou-se um exercício vital para uma vida mais serena e livre de arrependimentos. A leitura do que foi escrito torna os pensamentos mais tangíveis, visíveis e próximos do entendimento. A prática de anotar o que navega distante na mente ancora o indivíduo no presente, promovendo uma auto-organização consciente.
A conclusão do livro foi marcada por uma tragédia pessoal: o falecimento de seu pai, quando a obra estava aproximadamente 60% completa. O luto impôs uma pausa abrupta na escrita de Plácido, que se viu imerso em uma dor profunda, questionando a partida de quem era seu melhor amigo em um momento tão crucial.
Contudo, com o tempo, o incômodo inicial começou a dar espaço a uma forte vontade de preencher a ausência com palavras. As memórias de seu pai tornaram-se o motor para adaptar situações e contextos pessoais à trama ficcional. A escrita, com suas letras aglomeradas, tornou-se um refúgio, impedindo a paralisação diante de um mundo que havia perdido sua cor e se tornado mais hostil.
No universo de “Louca Normalidade“, o pai de Plácido estava vivo, tão presente quanto em seus tempos de carne e osso. A repetição do hábito herdado de quem se foi permitiu ao autor olhar com curiosidade para o vazio recém-chegado. Assim, o sofrimento se tornou um caminho para a compreensão e aceitação, abrindo espaço para uma doce saudade e um grande aprendizado: a escrita como uma forma de (re)viver.
Plácido Berci, jornalista formado pela PUC-Campinas, tem uma carreira consolidada como repórter e apresentador esportivo na TV Globo desde 2015. Além de “Louca Normalidade“, é autor de “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”.
“Louca Normalidade“, publicada pela editora Mondru, narra a história de um jornalista aposentado que, após um AVC, passa a registrar tudo para preservar a memória. Sua jornada toma um rumo inesperado ao encontrar uma anotação sobre um possível crime, deixando em aberto a dúvida se é real ou fruto de sua condição. O livro entrelaça suspense e drama familiar, abordando temas como luto, solidão, amor e as dinâmicas entre gerações.
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